Autora: Juliana Miranda

A diferença de quando o ágil deixa de ser mais que um método e passa a ser o propósito

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Já não é novidade para ninguém que vivemos em um mundo de mudanças e crises constantes, que impactam a todos nós em nível global e de elevada velocidade. São ações de disrupção digital, crises ambientais, políticas, choques financeiros e por aí vai. Surpresa hoje em dia é o que não falta.

Em uma realidade tão dinâmica, empresas de todos os ramos buscam meios de se tornarem mais facilmente adaptáveis e ágeis. Afinal, elas precisam aprender a prosperar em contextos imprevisíveis e de mudanças constantes. Aliás, este processo de mudança organizacional tem ganhado vários nomes. Transformação Digital, Organizações Digitais, Organizações Modernas são alguns exemplos. Neste artigo, utilizarei a referência de Organizações Ágeis.

Por essa razão, o ágil tem sido cada vez mais reconhecido como uma solução para as organizações. Inclusive, no artigo Por que sua empresa deve investir no ágil para superar desafios? eu pontuo algumas referências de frameworks ágeis que ajudaram negócios a superarem a mudança provocada pela COVID-19. Se você ainda não leu, vale a pena ler, principalmente se você quiser ter uma visão mais prática da situação.

Dito isto, vamos então detalhar o que é uma empresa ágil e como ela se sobressai em uma realidade dinâmica.

O que é, de fato, ser ágil?

Do contrário do que muitos podem pensar, inovação não é uma característica exclusiva de organizações ágeis. É comum encontrar empresas, mesmos as mais tradicionais, que têm algum tipo de preocupação com inovação, ainda que esporádico.

O diferencial do ágil, entretanto, é que essa inovação não se dá de maneira esporádica, mas sim de maneira sistêmica, que se sustenta enquanto crises vêm e vão. Dessa forma, a empresa se torna capaz de ganhar força e market share, ainda que diante de uma crise. Por outro lado competidores do mercado menos adeptos a mudanças são derrubados ao longo de tantas oscilações.

Para se sobressaírem nesse cenário, é preciso que organizações, tanto as emergentes quanto as já estabelecidas, incorporem a missão de desenvolver algumas capacidades essenciais, as quais contribuem para acelerar novas fontes de crescimento e produtividade. Alguns exemplos dessas capacidades são:

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O ponto de partida para essa mudança, entretanto, deve ser um só: a experiência do cliente. Colocar o cliente como centro da organização enfatiza a busca por um consumidor satisfeito, intensificando também a procura pela solução das ineficiências inerentes ao negócio.

O desafio de incorporar o ágil

Qualquer organização que decide investir no ágil logo percebe a importância de se olhar para as dimensões mais básicas a fim de reestruturar seu modelo de operação. Contudo, o processo mais desafiador talvez seja incorporar o ágil ao propósito da empresaalgo que só acontece após um trabalho bastante cuidadoso com o núcleo central de qualquer empresa: as pessoas.

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Ainda que a implementação do ágil necessariamente passe por todas as dimensões mais básicas da empresa, como Estratégia, Processos e Tecnologia, é a dimensão Pessoas que oferece o maior desafioAfinal,ela envolve diretamente uma mudança na cultura da empresa.

Sendo assim, passamos a entender o porquê de mesmo uma organização com inúmeros times ágeis possa não se considerar uma empresa ágil. Afinal, para que a inovação deixe de ser esporádica e passe a ser sistêmica, é preciso que essa mudança passe pela cultura da empresa.

O ágil é para todas as empresas?

A variação dessa pergunta aparece em muitas conversas que participo com líderes de empresas de diferentes segmentos e modelos operacionais. E sim, o ágil é para todas as empresas.

Entretanto, mais importante que os frameworks em si é a maneira de pensar e agir. Isto é: entregar valor rápido e constante, focar no trabalho para construir soluções, responder rapidamente às mudanças e promover melhorias contínuas a partir de aprendizados.

A principal razão da agilidade não dar certo, em alguns lugares, normalmente é o próprio ágil mal construído. É muito comum ver iniciativas de mudanças que utilizam práticas ágeis, mas que não tornam-se bem sucedidas por várias razões e, no fim, o ágil acaba sendo interpretado como a causa do problema.

Outro ponto a se considerar é que outras áreas assumem mais o papel de suporte (HR e Finanças) ou de controle (Auditoria e Compliance). Por consequência, tais áreas não utilizarão os frameworks ágeis com a mesma frequência que os times de de inovação.

Entretanto, para que uma organização se torne verdadeiramente ágil, estas demais áreas devem incorporar o pensamento ágil para apoiar e gerir. Isso é importante até para que compreendam que alguns processos burocráticos não fazem sentido para os times ágeis.

Por essa razão, ainda que os modelos de trabalho ágeis sejam utilizados com mais frequência pelos times de inovação, é desejável que todas as áreas da organização compartilhem certos pensamentos, valores e comportamentos ágeis. Pois, dessa forma, todas as áreas da empresa estarão de acordo com a metodologia ágil, ainda que esse modelo de trabalho não seja frequente a todas elas.

Quando o ágil funciona melhor?

Cada organização possui uma jornada de transformação diferenciada. Consequentemente, os motivos de casos mal sucedidos de implantação de frameworks ágeis são vários. Pelas mesmas razões, não há uma fórmula garantida, mas há uma composição de fatores comuns que determinam o sucesso da mudança que, juntos, facilitam a adesão e a mudança. São eles:

  • • Propósito da organização e das ações focadas no cliente.
  • • Consolidação da ideia nas pessoas de que o trabalho delas é também aprender coisas novas.
  • • Liderança engajada e apoiadora, que tenham a real intenção de serem um exemplo dos valores ágeis.
  • • A visão de que crescer e desenvolver os times é mais importante do que a redução de custos.
  • • Os times que mais precisam adotar os frameworks ágeis são os com necessidades de agilidade para entregar valor ao negócio e ao cliente.
  • • Times compostos por perfis multidisciplinares e que tenham dedicação ao desenvolvimento do produto.
  • • Apoio a pessoas ou serviços com experiência para acelerar os aprendizados.
  • • Entender a importância do tempo para desenvolver mais a cultura ágil de seus praticantes/multiplicadores.

Aderir a uma abordagem ágil na organização, basicamente, é sair de um modelo baseado em grandes planos, que por si só já exigem um enorme esforço para gerenciá-los, e adotar uma abordagem mais focada em hipóteses. Algumas ações que ajudam nessa iniciativa são:

  1. Estabelecer metas muito claras em visão de ano, mas em desdobramentos e prazos menores, como o Modelo OKR.
  2. Orientar que os times, principalmente os de inovação, foquem no trabalho de maior valor.

A inovação é tão importante quanto a operação

Uma das coisas que podem dificultar as mudanças para uma organização mais ágil é a supervalorização da inovação. Fala-se tanto da importância da empresa inovar em seus produtos e criar mercados disruptivos que toda essa intensidade pode passar a impressão de que a operação de uma empresa não é mais tão importante.

Engano! É necessário cuidar da inovação tanto quando da operação da empresa para ser uma empresa ágil. Tratam-se de forças complementares e interdependentes. Essa atuação conjunta é comumente conhecida como a ambidestria organizacional, ou, no termo utilizado pelo José Salibi Neto, a empresa rodar os 2 motores: o da Inovação e o da Eficiência na operação.

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Portanto, uma empresa moderna é aquela que possui estrategicamente esses dois sistemas sendo transformados com foco no negócio e no cliente. Isso, claro, sem deixar de incorporar as inovações na operação, desde que se verifique que sua qualidade esteja estabilizada.

Na prática, qual o ganho em utilizar abordagens ágeis?

Além da adaptabilidade organizacional, já citada, outros exemplos de benefícios na organização ágil são:

  • • Maior habilidade para gerenciar mudanças de prioridades.
  • • Melhor visibilidade dos projetos e seus resultados.
  • • Rápida adaptação e recuperação do fracasso.
  • • Negócios e TI alinhados e atuando em conjunto.
  • • Times mais motivados, o que gera menor saída.
  • • Agilidade na entrada de mercado.

Por fim, é importante concluir que o ágil não é algo que se faz, e sim algo que se torna. Sabemos que há diversos desafios a serem enfrentados para tornar uma organização ágil, principalmente quando se trata em mudar a forma de como as pessoas trabalham e interagem diariamente.

Aqui na ília, já tivemos a oportunidade de contribuir com várias organizações que estão promovendo suas transformações digitais. Trabalhamos, mentoramos e também sofremos juntos por cada burocracia que atrapalha a entrega, cada desafio operacional e tecnológico.

Tiramos nossos aprendizados e fomos nos reinventando nos processos, tecnologia, estrutura e pessoas. Dessa forma, conseguimos simplificar as interações das pessoas, e nos tornarmos uma organização cada vez mais flexível e de pessoas inovadoras. Nossos ganhos foram diversos e nossos resultados têm sido cada vez melhores.

E na sua organização, quais são os desafios que enfrenta na simplificação das relações e alcance da agilidade organizacional? Comente aí com a gente!

Esse artigo faz parte de uma série sobre cultura ágil. A introdução pode ser encontrada em Por que sua empresa deve investir no ágil para superar desafios?